22.8.07

CONHEÇO ESSA HISTÓRIA


Ela achava que não se importaria mas o fato é que o cara tinha outra. E, porra, ser a outra era foda. Ou pior, só foda. Mesmo que parecesse romantismo demais querer mais do que foda, o vício literário, coisa e tal. Não havia escapatória. Ninguém poderia convencê-la de que a espécie precisa sobreviver independente das construções sociais, do amor ou dos hormônios e químicas que a ele correspondem na nossa culturazinha essa. Ela ainda acreditava.
Mas o cara era bom de papo e o máximo de ceticismo a que ela se permitia era exigir além de sexo, um bom papo. Desses que a punham a pensar na vida e nas lou-cu-ras pouco cotidianas que a compõe e a faziam sentir-se diante de alguém um pouco mais digno do que ela, porque ela só queria ser com outro (mas não como a outra, né, béim). Mesmo que jurasse ser essa sua única certeza: de que não seria levada. Apesar da música. Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. Acontece que ela preferia Cartola. Disfarça e chora.


São Paulo, um mês frio de 2003.