17.10.06

Dr. MAXIMUS




SAN ANTONIO DE LOS BANOS, 17 DE OUTUBRO

Impossível resistir à rima pobre, mas é que realmente o Dr. Maximus é o máximo. Magro, grisalho, pele clara, pouco mais de 60 anos. É o médico responsável aqui pela escola. Vestia um jalequinho branco puído e calças jeans com um lencinho de pano no bolso direito. Faz calor em Cuba, quente e úmido, como eu já disse, e suar é algo tão natural quanto respirar. O lencinho pode ser uma boa arma para não deixar que as gotas escorrendo atrapalhem o discurso. E lá estava ele, com sua simpatia transparente, numa quinta-feira, dia 20 de setembro, a falar com nossa classe sobre assistência de saúde e coisas relacionadas à manutenção de nossa integridade física. “A historia que deveria contar para vocês é muito longa, então façamos um grande corte no tempo e vamos direto para a Segunda Guerra Mundial”. Foi assim que ele começou a conversa. Queria nos explicar como surgiu essa preocupação com a saúde integral para garantir nossa realização plena enquanto seres humanos no mundo... E como o país estava organizado para garantir que nós teríamos acesso a isso. Foi uma coisa doida, dessas que me fazem me dar conta de que estou em Cuba, uma realidade muito, mas muito peculiar. Falou por pouco mais de uma hora, tempo suficiente para que nos mostrasse como funciona o sistema de saúde no país, a quem devemos recorrer e quando, a disponibilidade de assistência na escola e como eles estão preparados para cada coisa. É como se as instituições vivessem em um constante estado de alerta. Neste momento, aliás, o país vive uma epidemia de dengue. Para nossa sorte, a escola fica numa região de segurança, um cinturão de isolamento que da uma certa tranqüilidade quanto a isso. No entanto, qualquer um que tiver febre deve comunicar imediatamente a enfermaria. E semanalmente vem o “fumegador” esborrifar inseticida pelos arredores. Vale registrar, aliás, que todos nós quando chegamos tivemos de fazer exames de sangue, fezes e urina. Há que saber que tipo de “perigo” podemos significar em termos de saúde para poder garantir que ele não afete o estado de equilíbrio relativo das coisas. É assim que a vigilância sanitária faz o seu trabalho. Comecei a entender melhor o sentido do termo vigilância sanitária.
Pegar em armas?
E ele seguia. “Se vier um tornado, estamos preparados para lidar com ele. Sabemos para onde mandar as pessoas, como organizar a ajuda. Se vier uma epidemia avassaladora de sabe lá o que, temos o país dividido em áreas de segurança, com responsáveis por isso, isso e aquilo, suprimentos não sei onde, etc. Se os ianques resolverem nos invadir, temos aqui nossos bunkers com armas, pessoas treinadas para cuidar dos civis e outras para irem para a zona de enfrentamento”... Como se pode imaginar, esse último detalhe, claro, causou risos na classe, não sei se pela forma como soou cômico ou assustador ouvir aquilo. De fato, ainda não sei dizer se foi só uma piadinha, ou se realmente cada cubano deste país está preparado para uma invasão estadunidense. Na dúvida, também cai no riso. E mais uma vez me dei conta de que estou em Cuba.Máximus nos falou também da questão da droga por aqui, mais uma vez de uma perspectiva histórica, com exemplos concretos, dados e sempre aberto para esclarecer as dúvidas. Falou ainda de bebidas e de como o consumo excessivo de álcool extrapola os limites da responsabilidade da escola sobre a gente. Para terminar, uma linda exposição sobre sexo, HIV e camisinhas, com direito a demonstrações da eficiência do preservativo oferecido gratuitamente pela escola, finalizada com a sugestão de que façamos todos a opção pelo amor grego e não pelo amor romano. “O amor romano não tem muita graça, é só cupido, sexo, uma noite e nada mais. Já o amor grego...” E contou rapidamente sobre as três deusas gregas filhas de não sei que deuses que formam o amor grego - e aqui aproveito para assumir essa minha grave falha de repertório, que eu realmente desconheço essa parte da história. Mas o recado era claro: ao contrário do outro, é o amor multifacetado, integral, do qual fazem parte sexo, companheirismo e prazer intelectual.
Eu disse. O dr. Máximus é o máximo.

SOBRE A FOTO - Pedaco de Havana

16.10.06

DAS PRIMEIRAS COISAS QUE ESCREVI NA ESCUELA




San Antonio de Los Baños, terça-feira, 12 de setembro de 2006.

Faz calor. Daqueles que sempre ouvimos na escola, quente e úmido. Mas não como no Brasil. Ou melhor não como no sudeste do Brasil, que é de fato o ao qual faço referencia. São dez para meia noite. Segundo dia de aula na Escuela Internacional de Cine. Aretha Franklin me acompanha, regalo de Marcel e Carol que gentilmente, não só cederam o laptop, como me entregaram pronto pra uso e personalizado, além de outros mimos como um cd de mp3 que traz entre outras pérolas, algumas essas da Aretha, que escuto agora.

E, bueno, três películas e algumas cervejas depois, resolvi escrever. Até agora não tinha feito isso, não porque faltasse assunto, sino que faltou vontade de dar tempo a isso. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e eu com essa mania de querer fazer/estar em tudo, não tinha me permitido esse luxo de ficar um pouco só com todas essas experiências que me estão passando.
Os espanholismos são de propósito. Cada um deles que estão aqui me foram percebidos, mas eu não quis tirar. Levo apenas alguns dias aqui, mas a cabeça já se põe confusa, misturando as duas línguas. Me gusta. Hay que empezar a pensar em espanhol, que é a língua oficial aqui. Engraçado como o sotaque dos brasileiros e a forma como nos comunicamos é algo que eles adoram tirar uma. Bueno, a verdade é que são tantos sotaques mesmo em espanhol, que essa coisa de tirar uma com a forma como as pessoas falam é quase um habito quotidiano.

Fidel foi nos buscar no aeroporto
Um homem assim grisalho, já com olheiras fortes denunciando a idade, vestido em verde oliva e com alguma simpatia transparecendo no rosto: era ele, em carne e osso. Fidel, o motorista da escola, foi nosso primeiro guia em Cuba. O avião pousou às 24h do dia 8 de setembro deste ano de 2006. Só conseguimos pegar as bagagens e resolver tramites aeroportuários umas 3 horas depois. Sem problemas, Fidel estava lá a esperar por nós.
E do aeroporto ate aqui, ele nos explicava cada partezinha do caminho, cada rua, as grandes construções, a casa de seu xará... Até que, meia hora depois, avistamos de longe uma construção a la modernismo brasileiro, de três andares de altura e palmeiras enfeitando o caminho que leva ao acesso: la Escuela. Aqui estamos. Aquela hora da madruga, ainda que estivéssemos super cansados, a verdade é que a visão impressionou: uma iluminação cinematográfica, escuridão pontilhada de luzezinhas ao redor, atmosfera criada provavelmente pelas minhas expectativas com relação a isso tudo.
Alguns dos estudantes do nosso grupo já estavam por aqui, emborrachando-se com ron na piscina e falando de uma tal "cultura chupistica". Quando viram o ônibus, correram para nos saudar e nos invitaran a juntar-nos a eles. Antes, colocar as malas no quarto, esticar um pouco o corpo e ver que pasaria.

O quarto é grande. Banheiro com peças novinhas, branquinhas, limpinhas. Mais uma boa surpresa, pués. Tanto quanto as rãs que são as verdadeiras donas desses espaços e que em breve merecerão um post especial, só para elas. Nada grave, juro.
A essa altura já estava sem forças para arrumar qualquer coisa, eram quase 4h e o cansaço tava forte. Mas Angélica é realmente uma pessoa inquieta e logo seguiu para a piscina a conocer sus nuevos colegas. "Cultura chupistica propone"... gritava um chilango. A idéia era que cada um desse uma resposta possível para a pergunta. Se não soubesse, dá-lhe um trago de ron. A coisa toda tava muito cultural, histórica e anti-imperialista. Se a proposta fosse "países invadidos pelos Estados Unidos", cada um deveria apontar um. E no caso de não saber, dá-lhe ron. Bueno, e por ai fomos com "romances latino-americanas que não sei que", "guerrilheiros não sei que la", mas a verdade é que a roda com mais respostas acertadas foi a de "cervejas latino-americanas", muito bem proposta por Davi, um dos brasileiros.

Primeiros dias
E a verdade é que não sei mais dizer em detalhes como se passaram os primeiros dias aqui. A ver se consigo ir por partes. Primeiro contato com o famoso comedor - o refeitório da escuela - foi melhor do que eu imaginava. Aliás, acabo chegando a conclusão de que no final foi bom terem feito tanto terrorismo com relação a essas coisinhas, porque não vi problema nenhum em nada do que falaram. Leite, café, torradas, pãozinho, manteiga, geléia, suco, água. Esse é nosso menu diário de café da manha. Todo dia, o mesmo. Mais do que a comida, o comedor é um espaço de socialização. Naquele momento éramos apenas os alunos do primeiro ano buscando integração. Hoje, quinta-feira, exatamente uma semana depois de nossa chegada, já somos quase todos de todos os anos, inclusive professores, funcionários e talleristas, aqueles que vêem para as oficinas de um mês. Um mundo de gente.
A primeira sexta-feira passamos o dia na escola, arrumando as coisinhas, vendo partes burocráticas, conhecendo as pessoas que trabalham por aqui, todas muito solicitas e simpáticas. Um primeiro problema que persiste ate hoje é o telefone. Fazer ligação a cobrar para o Brasil é uma chatice. Acabei comprando um cartão de telefone que custou nada menos que 3 euros, ou 15 reais, para arredondarmos para cima, por uma ligação de não mais que 2 minutos, literalmente. Ou seja, internet por enquanto é o meio de comunicação oficial. Skype funciona a duras penas, mas funciona. Quem já tem, anote o meu: angelicavalente. Quem ainda não tem e quiser falar comigo, plis, coloque... Não quero ficar tanto tempo sem ouvir a voz de vcs.
E, bueno, liberados dos "afazeres", só nos restava aproveitar a piscina e a sensação de que estávamos em uma colônia de férias. O clima do grupo cada vez melhor, mas confesso que a sensação de "velhinha da turma" e o fato de sermos poucas mulheres me incomodava. Já não incomoda mais.

SOBRE A FOTO - Sim, Os Gemeos jah estiveram por aqui...

9.10.06

ELA FAZ CINEMA?