Dr. MAXIMUS

SAN ANTONIO DE LOS BANOS, 17 DE OUTUBRO
Impossível resistir à rima pobre, mas é que realmente o Dr. Maximus é o máximo. Magro, grisalho, pele clara, pouco mais de 60 anos. É o médico responsável aqui pela escola. Vestia um jalequinho branco puído e calças jeans com um lencinho de pano no bolso direito. Faz calor em Cuba, quente e úmido, como eu já disse, e suar é algo tão natural quanto respirar. O lencinho pode ser uma boa arma para não deixar que as gotas escorrendo atrapalhem o discurso. E lá estava ele, com sua simpatia transparente, numa quinta-feira, dia 20 de setembro, a falar com nossa classe sobre assistência de saúde e coisas relacionadas à manutenção de nossa integridade física. “A historia que deveria contar para vocês é muito longa, então façamos um grande corte no tempo e vamos direto para a Segunda Guerra Mundial”. Foi assim que ele começou a conversa. Queria nos explicar como surgiu essa preocupação com a saúde integral para garantir nossa realização plena enquanto seres humanos no mundo... E como o país estava organizado para garantir que nós teríamos acesso a isso. Foi uma coisa doida, dessas que me fazem me dar conta de que estou em Cuba, uma realidade muito, mas muito peculiar. Falou por pouco mais de uma hora, tempo suficiente para que nos mostrasse como funciona o sistema de saúde no país, a quem devemos recorrer e quando, a disponibilidade de assistência na escola e como eles estão preparados para cada coisa. É como se as instituições vivessem em um constante estado de alerta. Neste momento, aliás, o país vive uma epidemia de dengue. Para nossa sorte, a escola fica numa região de segurança, um cinturão de isolamento que da uma certa tranqüilidade quanto a isso. No entanto, qualquer um que tiver febre deve comunicar imediatamente a enfermaria. E semanalmente vem o “fumegador” esborrifar inseticida pelos arredores. Vale registrar, aliás, que todos nós quando chegamos tivemos de fazer exames de sangue, fezes e urina. Há que saber que tipo de “perigo” podemos significar em termos de saúde para poder garantir que ele não afete o estado de equilíbrio relativo das coisas. É assim que a vigilância sanitária faz o seu trabalho. Comecei a entender melhor o sentido do termo vigilância sanitária.
Pegar em armas?
E ele seguia. “Se vier um tornado, estamos preparados para lidar com ele. Sabemos para onde mandar as pessoas, como organizar a ajuda. Se vier uma epidemia avassaladora de sabe lá o que, temos o país dividido em áreas de segurança, com responsáveis por isso, isso e aquilo, suprimentos não sei onde, etc. Se os ianques resolverem nos invadir, temos aqui nossos bunkers com armas, pessoas treinadas para cuidar dos civis e outras para irem para a zona de enfrentamento”... Como se pode imaginar, esse último detalhe, claro, causou risos na classe, não sei se pela forma como soou cômico ou assustador ouvir aquilo. De fato, ainda não sei dizer se foi só uma piadinha, ou se realmente cada cubano deste país está preparado para uma invasão estadunidense. Na dúvida, também cai no riso. E mais uma vez me dei conta de que estou em Cuba.Máximus nos falou também da questão da droga por aqui, mais uma vez de uma perspectiva histórica, com exemplos concretos, dados e sempre aberto para esclarecer as dúvidas. Falou ainda de bebidas e de como o consumo excessivo de álcool extrapola os limites da responsabilidade da escola sobre a gente. Para terminar, uma linda exposição sobre sexo, HIV e camisinhas, com direito a demonstrações da eficiência do preservativo oferecido gratuitamente pela escola, finalizada com a sugestão de que façamos todos a opção pelo amor grego e não pelo amor romano. “O amor romano não tem muita graça, é só cupido, sexo, uma noite e nada mais. Já o amor grego...” E contou rapidamente sobre as três deusas gregas filhas de não sei que deuses que formam o amor grego - e aqui aproveito para assumir essa minha grave falha de repertório, que eu realmente desconheço essa parte da história. Mas o recado era claro: ao contrário do outro, é o amor multifacetado, integral, do qual fazem parte sexo, companheirismo e prazer intelectual.
Eu disse. O dr. Máximus é o máximo.
SOBRE A FOTO - Pedaco de Havana


