23.11.07

OS LUGARES

LÁ NAO TEM CHOCOLATE
Hershey é um pueblito constru’do durante os anos 30 do século passado (adoro dizer ¨século passado¨) pelo entao senhor Hershey, isso mesmo, o manda-chuva da corporacao chocolateira. Segundo dizem, trata-se do œltimo povoado modelo do mundo e o œnico daqui do país. Resulta que o cara decidiu instalar em Cuba sua principal fábrica de acucar - matéria prima para seus chocolates produzidos nos Isteitis e vendidos no mundo inteiro. E para garantir que o povo trabalhasse feliz e satisfeito, ele entao montou toda a cidade, com centro comercial, hospital, cinema, transporte ferroviário e demais servicos necessários para a populacao e para a escoacao da producao, além de bairros separados por classes sociais, obviamente. E obviamente quando chegou a revolucao o cara saiu correndo daqui.
Fidel estatizou a fábrica, que continuou produzindo como a mais importante do país. Até que um belo dia, passados mais de 20 anos, a muchacha entrou em decadencia e teve de ser fechada.
Desse pequeno fragmento genérico da história já da pra imaginar o que aconteceu com o lugar, que para mim é uma mistura de melancolia com surrealismo. Eu ja tinha passado por lá em dezembro do ano passado e ao voltar senti a mesma coisa. A arquitetura é totalmente gringa, com casinhas de madeira coloridas e construcoes de pedra imponentes, algumas ainda bem conservadas, outras muitas já caindo aos pedacos. E que isso esteja encrustado em plena Cuba socialista é realmente surreal. Já a melancolia paira no ar porque a cidade, por mais que ainda tenha alguma vida, continua a sombra desse passado ¨glorioso¨, tanto de quando o gringo mandava, como de quando foi a grande fonte de renda da agricultura socialista. Resulta que entre as poucas pessoas que vivem ai Ð imagino que a populacao nao deve passar de mil, mil e poucas pessoas - existe muita coisa para ser tranformada em cinema. De fato, dos 12 grupos que formávamos, 3 rodaram seus trabalhos por la.
A prop—sito, desde que Mister Hershey se foi, nunca mais venderam chocolates em Hershey.

O MISTÉRIO DE CANASI
Nao tao pequena como Hershey e nao tao grande como Santa Cruz, Canasi é vista como uma espécie de ¨cidade maldita¨, mas niguém sabe explicar exatamente porque. Parece que o fazendeiro que fundou o povoado há mais de cem anos tinha um super projeto de desenvolvimento para o lugar, que nunca foi para frente.
A cidade é cheia de morros, subidas e descidas, coisa rara aqui em Cuba. No meio dessas ruas tortas, a populacao majoritariamente de velhinhos, as construcoes antigas e desgastadas, além dos contos misterioros que se escutam por aqui e por ali, compoem a atmosfera ¨fantasmagórica¨da qual tanto se fala. Tem até uma pedra de Menendez conhecida como a respons‡vel por essa estagnacao do pueblo.

Engracado que de tanto escutar falar da pedra, chegando por lá perguntei pela tal. Tava curiosa para ver a cara desse ente fant‡stico capaz de imobilizar uma cidadezinha. Resulta que a bagaca é tao, mas tao sem graca, que cheguei a cogitar a hip—tese de fazer um documentario só com relatos misteriosos sobre sua existencia para mostrá-la, medíocre, ao final. Sabe aquele ¨fuen fuen fuen¨ que a gente escuta nos programas de teve quando alguma coisa sai errado? Seria por ai a coisa.
Mas a verdade é que eu, que tenho mania de ver coisa bunita em tudo quanto é lado, nao cheguei a ser contaminada por esse ar todo estranho. O que vi realmente foi um pueblito como tanto outros daqui, do Brésil ou de qualquer outro lugar do mundo, cheio de mistério sim, mas cheio coisa boa escondida em cada ruga de cada morador. Foi lá que encontrei um de meus personagens, Damian Hernandez, 77 anos, aposentado, poeta amador e repentista. Sim, aqui em Cuba também tem repentista. Com a particularidade de que os repentes daqui sao chamados de dŽcimas porque quem se atreve a praticá-los tem que respeitar a forma de estrofes de 10 versos cada. Damian o faz desde jovenzinho e hoje as vezes ainda arrisca umas improvisacoes. Tem uma pilha de cadernos só de décimas sobre a revolucao, mas o que lhe inspira mesmo sao as mulheres, as bedeiras, as bobagens e as coisas boas da vida. Um velhinho safado, poder’amos dizer.

SANTA CRUZ DO ESQUECIMENTO
Esse é o titulo do documentario que estao fazendo Fofy e seu grupo e que me parece uma boa forma de se referir a Santa Cruz. A cidade tem o porte de San Antonio, com a linda vantagem de estar a beira do mar. Mas Santa Cruz parece mesmo esquecida, perdida no tempo. A história da cidade é bem doida, parece que por aqui já teve abundancia de ouro, riqueza das fábricas de rum, energia das termelŽtricas, resistencia forte do partido comunista, agricultura que abastecia quase toda a ilha. E agora nao resta quase nada disso.
No geral, é uma cidade com mais cara de cidade, com movimento, gente de muitas idades, escolas, centros comerciais, uma praca principal unindo tudo isso, enfim, um ambiente mais urbano capaz de dar espaco inclusive a um grupo de jovens rappers dispostos a criticar a situacao atual do país.
Meu segundo personagem é um deles, René, muchacho de 23 anos, funcionário da casa de cultura, estudante de sociocultura e também poeta. Damian e ele compoem o mundo que decidimos abordar, um binomio de geracoes distintas e parecidas ao mesmo tempo, especialmente pelo fato de serem poetas amadores, defensores dos ideiais da revolucao, mas cada um coerente com seu tempo. Nossa tese é a de que o tempo muda os contextos e portanto muda também as idéias. Aqui em Cuba há uma certa resistencia em aceitar este fato que pode parecer tao óbvio.