Desubicada
Eita nóis, quem diria. Demorou, mas vim parar aqui.
12.11.06
11.11.06
PIRATARIA A FAVOR DO CINEMA

San Antonio de Los Baños, 11 de novembro de 2006.
Sim, é isso. E não há nada de contraditório no título acima. Aqui na Escuela rola uma das mais férteis piratarias de filmes que eu já ouvi falar, e me arrisco sem medo a dizer que isso é algo que acontece em poucas partes do mundo. Se não pela quantidade de filmes que circulam entre alunos, professores e convidados, ao menos pela qualidade do acervo a que temos acesso nesse lugar. É de fazer o sentido pejorativo da palavra pirataria perder completamente o sentido. Ou no mínimo, fazer pensar mais a sério essa relação complicada entre arte e comércio. Não vou nem entrar no mérito da videoteca daqui, que tem mais de 5 mil títulos de tudo que se possa imaginar. Tou falando mesmo é dos DVDs que um traz dali e empresta para o outro queimar aqui, que aproveita e mostra seus outros 10 títulos lá, e nessas nego sai daqui com cada pérola de fazer qualquer cinéfilo morrer de inveja ou ter orgasmos múltiplos. Eu, que nem cinéfila sou, trouxe 50 DVDs virgens e me arrependi de cara por ter trazido tão pouco...
Pivô
Essa rede mais do que fértil começa numa ponta importantíssima que se chama Jorge Iglesias, intelectual cubano que vem a ser nosso professor de história do cinema. Trata-se de uma dessas figuras raras que amam em demasia o que fazem e com isso acabam por contaminar as pessoas ao seu redor. Ainda bem. Mais do que um estudioso de cinema, Jorge é um devoto dessa arte - e poder compartilhar disso com ele é mais um dos privilégios que temos aqui na escuela. Ele é o responsável pela Cátedra de Humanidades e de Extensão Cultural, o que significa que além de lecionar para os alunos dos três anos, também cuida da programação semanal de atividades culturais e de películas projetadas pela noite, na ilustre “Sala Glauber Rocha”, um auditório de tamanho médio que acaba sendo nosso cinema aqui. De segunda a sexta-feira, esse senhor alto, magro, com barriguinha protuberante , cabelo grisalho, óculos “a la” anos 80 e pele marcada de quem já teve muita espinha na adolescência, escolhe algumas das raridades da sua DVDteca particular ( e vale ressaltar que o “particular” não é por ser de propriedade privada e sim por ter a “particularidade”de ser quase integralmente pirata) e projeta para esse bando de famintos que tem aqui. Ah, e partir desse último domingo vamos ter sessões dominicais também, ao menos uma vez por mês. Quanto mais vemos, mais queremos ver, fazer e pensar cinema. E mais nos damos conta de como nossa bagagem é pequena. De quanto sempre haverá tanta coisa por ver... Enfim, voltemos ao Jorge.
Cinema é para ser visto
Depois de cada projeção, quando ainda estamos atordoados, admirados, irritados, ou seja lá como for, com o que vimos, normalmente ele propõe um pequeno debate com o público. Não é raro que se passe um daqueles silêncios típicos de quando um palestrante termina sua exposição e pergunta se “alguém tem alguma pergunta?” É incômodo. Mas ele não se importa. E com a placidez que lhe é característica, insiste: “não querem perguntar nada? Não sentiram nada com relação ao que viram? Alguma coisa que chamou atenção? É preciso ver e falar de cinema!” Passam-se mais alguns incômodos segundos e logo alguém se manifesta, nem que seja apenas para perguntar o ano que o filme foi realizado. E a conversa começa a fluir. Posso dizer sem titubear que Jorge é um dos responsáveis por estimular ainda mais meu gosto por cinema. Foi graças a ele que conheci o que se faz no leste europeu, muito além de Kieslovsky. Que pude entender os aportes de linguagem trazido por diferentes diretores de todas as partes do mundo. Que passei a admirar Godard, que eu achava hermético demais. Que tive o privilégio de assistir a verdadeiras obras de arte do cinema japonês. Que soube, aliás, que por muito tempo o Japão foi o único país do mundo em que se via mais cinema nacional do que cinema norte-americano. Que entendi os contextos sócio-históricos que envolveram cada momento da história do cinema. Que vi cinema mudo sem dormir. Que conheci Buster Keaton e morri de rir. Que vi Betty Boop com sua transgressão travestida de inocência. Que tive acesso a um cinema de animação que poucos ainda se lembram que existe. Que conheci “um tal de” Bela Tar e seu cinema arrebatador. Que conheci um Lars von Triers muito além de “Os Idiotas”. Que revi Truffaut e descobri a paixão pela “frescura cinematográfica” (a expressão é dele) da Nouvelle Vague. Que viagei nas loucuras de Herzog. Que vi um filme com o sugestivo título de “Também os anões começaram pequenos” e entendi que cinema também pode ser um espaço anárquico e de desobediência civil. Que consegui ver dois filmes de Tarkovsky sem dormir. Que consegui ver dois filmes de Tarkosvsky e mergulhei no que vi. Que descobri que mesmo tendo visto mais de 100 películas desde que coloquei meus pés nesse país, a maioria delas mostrada por ele, a cada novo dia ele terá uma novidade, nem sempre nova, mas sempre necessária para nos mostrar. Graças a ele, e a todos que se juntam todos os dias nessa rede, todos aqui temos acesso a tudo isso. E quando voltar para o Brasil, terei ao menos 50 filmes dos mais importantes da história do cinema prontos para serem copiados e distribuídos por ai, por e para quem quiser. Porque cinema é para ser visto. Porque é preciso ver e falar de cinema.
SOBRE A FOTO - Casario lindo que tem em Havana, em frente ao Capitolio, sede do guverrrno Castro.



