
Seria quase uma heresia tentar resumir tudo que aconteceu nesses primeiros tres meses aqui - e como nao quero ser tratada como herege, nao farei isso. Vou me limitar a contar uma daquelas que para mim foi das mais significativas.
A oficina de direcao comecou logo depois das de roteiro e historia do cinema. Comandada pelo sr. Nene, cineasta argentino mais conhecido como Hector Molina, quase sem querer acabou por injetar um gás diferente na turma 2006-2009 da escuela. Verdade seja dita, as aulas do cara eram um porre, ele é um desses que manjam da pratica mas se perdem na teoria e em pouco tempo eu ja nao conseguia mais dar atencao para o que ele falava. Afinal, vinhamos de duas oficinas super teoricas de tirar o chapeu. A sensacao que tenho agora é de que estavamos muito mal - ou muito bem - acostumados e o blablabla de Mr. Nene nao colava. Até que ele nos propusesse exercicios praticos.
Nos dividimos em grupos de 4 a 7 pessoas e realizamos um total de 6 trabalhos, comecando por contar uma historia em foto fixa. Partimos da famosa teoria de que duas imagens justapostas criam um terceiro sentido para o que se ve. Dai seguimos para foto fixa mais audio e logo para proposicoes em video. E nao é que foi do caralho? O grupo do qual fiz parte estavamos Jana, David, Domingos e eu. Em principio, o fato de sermos tres brasileiros juntos parecia algo pouco favoravel. Mas Dominguitis, o guatemalteco mais figura dessa escola, conseguiu entrar no nosso ritmo e a gente no dele numa boa.
Primeiras obstruccionesSim, os exercicios de foto fixa foram muito bacanas, mas quando partimos para video é que o bicho comecou a pegar. A primeira solicitacao do professor foi de que fizessemos uma narrativa com 10 planos de nao mais que 10 segundos cada, com camara fixa e sujeito fixo. Sem saber, Hector acabava de plantear o que viria a ser a primeira das tres obstrucciones de Molina.Como aconteceu mais ou menos com todos, meu grupo passou por um processo de aprendizagem muito bacana. No comeco, nao estavamos levando a coisa tao a serio, parecia que era tudo apenas uma questao de exerciar as possibilidades do audiovisual, sem grandes pretensoes. Criado e dirigido pelo Domingo, nosso primeiro videozinho chamava ¨Amigos ao Vento¨, uma narrativa simples e bobinha, em que Jana, David e eu estreamos como atores de cinema, rarararrarara...
Como da para imaginar, as atuacoes foram literalmente uma piada, a ponto de que até hoje o povo olha para a nossa cara e comeca a imitar alguns dos dialogos que diziamos. Simprinho, mas limpinho, eu diria. Para nossa surpresa, no momento de apresenar os trabalhos, vimos que quase todos os grupos fizeram coisas muito boas e levaram a tarefa a sério. O nosso era realmente um dos mais simprinho, mas tinha la suas qualidades. E ai bateu aquela vontade de fazer algo diferente. Nesse mesmo dia, satisfeto com o resultado dos trabalhos, o professor mandou em seguida a proxima obstrucao. Agora, deveriamos trabalhar com os mesmos 10 planos, os mesmo 10 segundos, porém com camara fixa e sujeito móvel. Era preciso que alguém ou algo entrasse e saisse de quadro sempre. E la famos nós.
Logo de cara nossa reuniao para pensar as ideias foi outra coisa. Todos queriamos fazer algo bacana, para tentar superar o que já havia sido feito. Jana chegou com uma proposta e entao comecamos a desenhar nossa história juntos. ¨A venda¨ ou ¨La Venta¨é uma tiracao dessas propagandas de teve em que neguinho quer te vender de tudo mostrando suas super qualidades, bem a la organizacoes Tabajara. Chamamos Miguel e Carlos para atuar, dois dos caras mais figuras da sala: Miguel como o vendedor mala que surgia sempre do nada, e Carlos como a vitima. Ficou hilário. E mais bem feito que o anterior, sem dúvida. Da mesma maneira, os outros grupos chegaram com trabalhos melhores que os primeiros. E o povo cada vez mais animado com essa historia de ter que cumprir determinadas regras para criar narrativas audiovisuais.
PartirFinalmente, a terceira e ultima obstrucao. Agora o desafio era trabalhar com camara móvel e sujeito fixo, os mesmos 10 planos, os mesmos 10 segundos. Nosso grupo partiu de uma sugestao que dei de tentarmos adaptar alguma coisa do ¨Fragmentos do Discurso Amoros¨, o famoso livro do Barthes. Acabamos fugindo um pouco disso - e os Fragmentos devem virar meu curta de 3 minutos - mas seguimos com a idéia de contar uma história de amor em10 momentos: quando se conhecem, aproximacao, uniao, cotidiano, vida em cumum, necessidade de partir, dor e aceitacao do fato, despedida e finalmente partida. Cada um de n—s quatro desenhamos um pedaco dessa relacao e o resultado foi um video coletivo de fato. Tem o dedo de todos ali e é muito gostoso ver no que deu. Para arrematar, incluimos ¨Deixe-me ir¨, Cartola na veia, como trilha sonora.
Além do fato de que ver ¨Parti¨é ver clarissima nossa evolucao nesse processo de trabalhos praticos, o videozinho acabou sendo ¨eleito¨por muita gente como o melhor entre todas as obstrucoes. Ok, ok, estamos falando apenas de um exercicio pratico de uma aula de direcao de uma escola de cinema. Mas, de novo, todo mundo mandou super bem na production. Resumindo a opera, duas semanas, muitas noites viradas em claro e alguns trabalhos praticos depois, essa turma estava tao euforica com a experiencia que pareciamos uns bobos ollhando um para a cara do outro e dizendo: caralho, que bom que a gente ta aqui, que doido tudo que a gente pode fazer junto. Até o prefessor parecia meio surpreso e feliz com o resultado disso tudo. Mais empolgados ainda, Kike e Gustavo prepararam um DVD com todos os exercicios, incluindo uma entrevista com Hector, numa especie de documentariozinho que levou o nome de ¨Las tres obstrucciones de Molina¨, em uma alusao pretensiosa mas comica as 5 obstrucoes do Lars von Triers.
O episódio foi encerrado com a projecao dos trabalhos na sala de cine daqui, com presenca de boa parte dos alunos da escola. Después, um belo jantar preparado por Alberto, com pernil ao vinho branco, salada de tomates, alface, cenoura e queija branco, pao, cervejinha e rum, claro.
Nao custa dizer que...
Em teoria, o exercicio individual de 1 minuto deveria o momento mais marcante do trimestre, afinal é quando cada um realiza sua propria historieta, sua primeira ¨obra autoral¨ aqui na escola. E realmente a semana em que eles aconteceram foi intense, interesante, etc. Talvez seja até injustica comparar as duas coisas, que sao tao distintas, blablabla, pero, realmente, pelo menos para mim, a experiencia dos minutos, talvez mais importante em termos individuiais, nao superou o que conseguimos realizar e curtir com as obstrucciones. Foi du caralho.
na fota - parte do polvo em alguma parte da festa acima referida