OS TRABALHOS
Terminado o processo de investigacao, tinhamos como outros possíveis temas um bairro de Santa Cruz chamado Harlem e uma personagem pela qual me apaixonei, chamada Michini. Harlem nos interessou por ter muitas semelhancas com seu chará estadunidense, ou seja, grande maioria de moradores negros, com um histórico de resistencia em favor da revolucao e da causa afro cubana. Disso poderiam sair boas reflexoes nao só comparativas, mas também pelo fato de que hoje estao precisando voltar fazer o bairro ter a vida que tinha há até pelo menos 10 anos atrás.
Já Michini tem um quiosque de comida rápida em Hershey, em frente a uma pequena estacao de trem, o que garante clientela fiel. Ali ela vende café, suco, pizzas, bolos e outras tantas coisas que compoem o universo da comida de rua cubana. O que faz dessa negra, gorda, do sorriso estatelado, um super personagem é a maneira como ela interage com os clientes, chamando todo tempo por nomes carinhosos, fazendo graca, dando bronca em forma de piada, advinhando o que querem. Quando estive em Hershey em dezembro passado fui comer lá e fiquei uma hora parada só olhando as coisas acontecerem naquele espaco tao pequeno e tao doido. Diga-se de passagem, o documentario que fariamos ali seria assim mesmo, camara observadora total, só deixando a mocoila atuar com essa desenvoltura apaixonante que ela tem. Se um dia voltar para lá com tempo - e penso que um dia inteiro basta - gravo Michini, sem dúvida.
Pero bueno, decidimos pelos dois poetas, apresentamos a proposta, nos aprovaram e partimos pro abraco. Mas a coisa nao foi tao rápida assim.
A segunda tanda
Por uma questao de organizacao, tivemos dois blocos de rodagem, ou como eles chamam aquí, duas tandas. Na primeira, rodaram os 6 estudantes da cátedra de direcao e na segunda, nóis de documentário. A principio ficamos entusisasmados com o fato de comecarmos depois, afinal teriamos mais tempo para seguir investigando e adiantando pré-producao. No final das contas, o tempo foi um pouco demais e chegamos a ter momentos de saco cheio de tanto esperar para comecar a rodar de vez.
Obviamente que o ¨saco cheio¨ tem de ser relativizado, porque estando hospedados em um lugar que fica a beira do mar, com milhares de opcoes de praias e distracoes para passar o tempo morto, qualquer ser humano pensaria duas vezes antes de queixar-se. Entonces, para suportar a espera, o jeito foi aproveitar para seguir os trabalhos com os personagens, curtir muita praia, caminhadas e passeios pelos arredores, ler os livros que trouxemos, pensar, repensar e reestruturar a primeira versao do roteiro... E de repente os 10 dias voaram.
A hora H
A rodagem foi outra experiencia super linda. Obviamente que eu tava um pouco ansiosa com essa coisa de ter de dirigir uma equipe, mas a integracao tava tao boa que a coisa foi mais sussa do que imaginava. Todos estavam metidos na historia que decidimos contar e sabiam exatamente o que estávamos buscando em cada momento. Todos ajudavam na hora de construir as imagens e os sons que vao compor esse universo, enfim. Mais do que uma equipe, éramos co-autores do trabalho e foi muito bom.
Outra coisa bacana foi poder comparar as dinamicas de passar um dia todo com um senhor de 77 anos e com um marmanjo de 20 e poucos. Obviamente que o senhor demanda muito mais atencao e calma, enquanto o cara em dois minutos estava pronto para fazer o que a gente pedisse.
Já no ultimo dia de rodagem, voltando de onibus para nossa ¨base¨, tava olhando pela janela, viajando na composicao da luz escura da noite com as reflexos pouco iluminados dos faróis nas placas de sinalizacao e de repente, pum, me dou conta de que havia terminado uma rodagem de um documentário em Cuba. Quem acompanhou minhas tentativas tantas de chegar até aqu’ pode imaginar mais ou menos como me senti nesse extao momento. Doidera.
E FINALMENTE A PÓS
Agora só falta armar o roteiro de edicao, editar, mesclar sonido e ir pro abraco, rarararararara. Quer dizer, ainda resta um longo caminho até finalizar o exercicio que, de acordo com o cronograma, deve terminar dia 12 de dezembro, quando tentarei mandar mais noticias por aqui.
Por enquanto fica o registro apressado de mais um processo eictviano desses me fazem pensar na vida e agradecer a insanidade de nao ter desistido de vir para cá mesmo depois de duas tentativas frustradas. Como diria Ariel, ¨¨yeah¨.
