23.11.07

OS TRABALHOS

Terminado o processo de investigacao, tinhamos como outros possíveis temas um bairro de Santa Cruz chamado Harlem e uma personagem pela qual me apaixonei, chamada Michini. Harlem nos interessou por ter muitas semelhancas com seu chará estadunidense, ou seja, grande maioria de moradores negros, com um histórico de resistencia em favor da revolucao e da causa afro cubana. Disso poderiam sair boas reflexoes nao só comparativas, mas também pelo fato de que hoje estao precisando voltar fazer o bairro ter a vida que tinha há até pelo menos 10 anos atrás.
Já Michini tem um quiosque de comida rápida em Hershey, em frente a uma pequena estacao de trem, o que garante clientela fiel. Ali ela vende café, suco, pizzas, bolos e outras tantas coisas que compoem o universo da comida de rua cubana. O que faz dessa negra, gorda, do sorriso estatelado, um super personagem é a maneira como ela interage com os clientes, chamando todo tempo por nomes carinhosos, fazendo graca, dando bronca em forma de piada, advinhando o que querem. Quando estive em Hershey em dezembro passado fui comer lá e fiquei uma hora parada só olhando as coisas acontecerem naquele espaco tao pequeno e tao doido. Diga-se de passagem, o documentario que fariamos ali seria assim mesmo, camara observadora total, só deixando a mocoila atuar com essa desenvoltura apaixonante que ela tem. Se um dia voltar para lá com tempo - e penso que um dia inteiro basta - gravo Michini, sem dúvida.
Pero bueno, decidimos pelos dois poetas, apresentamos a proposta, nos aprovaram e partimos pro abraco. Mas a coisa nao foi tao rápida assim.

A segunda tanda
Por uma questao de organizacao, tivemos dois blocos de rodagem, ou como eles chamam aquí, duas tandas. Na primeira, rodaram os 6 estudantes da cátedra de direcao e na segunda, nóis de documentário. A principio ficamos entusisasmados com o fato de comecarmos depois, afinal teriamos mais tempo para seguir investigando e adiantando pré-producao. No final das contas, o tempo foi um pouco demais e chegamos a ter momentos de saco cheio de tanto esperar para comecar a rodar de vez.
Obviamente que o ¨saco cheio¨ tem de ser relativizado, porque estando hospedados em um lugar que fica a beira do mar, com milhares de opcoes de praias e distracoes para passar o tempo morto, qualquer ser humano pensaria duas vezes antes de queixar-se. Entonces, para suportar a espera, o jeito foi aproveitar para seguir os trabalhos com os personagens, curtir muita praia, caminhadas e passeios pelos arredores, ler os livros que trouxemos, pensar, repensar e reestruturar a primeira versao do roteiro... E de repente os 10 dias voaram.

A hora H
A rodagem foi outra experiencia super linda. Obviamente que eu tava um pouco ansiosa com essa coisa de ter de dirigir uma equipe, mas a integracao tava tao boa que a coisa foi mais sussa do que imaginava. Todos estavam metidos na historia que decidimos contar e sabiam exatamente o que estávamos buscando em cada momento. Todos ajudavam na hora de construir as imagens e os sons que vao compor esse universo, enfim. Mais do que uma equipe, éramos co-autores do trabalho e foi muito bom.
Outra coisa bacana foi poder comparar as dinamicas de passar um dia todo com um senhor de 77 anos e com um marmanjo de 20 e poucos. Obviamente que o senhor demanda muito mais atencao e calma, enquanto o cara em dois minutos estava pronto para fazer o que a gente pedisse.
Já no ultimo dia de rodagem, voltando de onibus para nossa ¨base¨, tava olhando pela janela, viajando na composicao da luz escura da noite com as reflexos pouco iluminados dos faróis nas placas de sinalizacao e de repente, pum, me dou conta de que havia terminado uma rodagem de um documentário em Cuba. Quem acompanhou minhas tentativas tantas de chegar até aqu’ pode imaginar mais ou menos como me senti nesse extao momento. Doidera.


E FINALMENTE A PÓS
Agora só falta armar o roteiro de edicao, editar, mesclar sonido e ir pro abraco, rarararararara. Quer dizer, ainda resta um longo caminho até finalizar o exercicio que, de acordo com o cronograma, deve terminar dia 12 de dezembro, quando tentarei mandar mais noticias por aqui.
Por enquanto fica o registro apressado de mais um processo eictviano desses me fazem pensar na vida e agradecer a insanidade de nao ter desistido de vir para cá mesmo depois de duas tentativas frustradas. Como diria Ariel, ¨¨yeah¨.

OS LUGARES

LÁ NAO TEM CHOCOLATE
Hershey é um pueblito constru’do durante os anos 30 do século passado (adoro dizer ¨século passado¨) pelo entao senhor Hershey, isso mesmo, o manda-chuva da corporacao chocolateira. Segundo dizem, trata-se do œltimo povoado modelo do mundo e o œnico daqui do país. Resulta que o cara decidiu instalar em Cuba sua principal fábrica de acucar - matéria prima para seus chocolates produzidos nos Isteitis e vendidos no mundo inteiro. E para garantir que o povo trabalhasse feliz e satisfeito, ele entao montou toda a cidade, com centro comercial, hospital, cinema, transporte ferroviário e demais servicos necessários para a populacao e para a escoacao da producao, além de bairros separados por classes sociais, obviamente. E obviamente quando chegou a revolucao o cara saiu correndo daqui.
Fidel estatizou a fábrica, que continuou produzindo como a mais importante do país. Até que um belo dia, passados mais de 20 anos, a muchacha entrou em decadencia e teve de ser fechada.
Desse pequeno fragmento genérico da história já da pra imaginar o que aconteceu com o lugar, que para mim é uma mistura de melancolia com surrealismo. Eu ja tinha passado por lá em dezembro do ano passado e ao voltar senti a mesma coisa. A arquitetura é totalmente gringa, com casinhas de madeira coloridas e construcoes de pedra imponentes, algumas ainda bem conservadas, outras muitas já caindo aos pedacos. E que isso esteja encrustado em plena Cuba socialista é realmente surreal. Já a melancolia paira no ar porque a cidade, por mais que ainda tenha alguma vida, continua a sombra desse passado ¨glorioso¨, tanto de quando o gringo mandava, como de quando foi a grande fonte de renda da agricultura socialista. Resulta que entre as poucas pessoas que vivem ai Ð imagino que a populacao nao deve passar de mil, mil e poucas pessoas - existe muita coisa para ser tranformada em cinema. De fato, dos 12 grupos que formávamos, 3 rodaram seus trabalhos por la.
A prop—sito, desde que Mister Hershey se foi, nunca mais venderam chocolates em Hershey.

O MISTÉRIO DE CANASI
Nao tao pequena como Hershey e nao tao grande como Santa Cruz, Canasi é vista como uma espécie de ¨cidade maldita¨, mas niguém sabe explicar exatamente porque. Parece que o fazendeiro que fundou o povoado há mais de cem anos tinha um super projeto de desenvolvimento para o lugar, que nunca foi para frente.
A cidade é cheia de morros, subidas e descidas, coisa rara aqui em Cuba. No meio dessas ruas tortas, a populacao majoritariamente de velhinhos, as construcoes antigas e desgastadas, além dos contos misterioros que se escutam por aqui e por ali, compoem a atmosfera ¨fantasmagórica¨da qual tanto se fala. Tem até uma pedra de Menendez conhecida como a respons‡vel por essa estagnacao do pueblo.

Engracado que de tanto escutar falar da pedra, chegando por lá perguntei pela tal. Tava curiosa para ver a cara desse ente fant‡stico capaz de imobilizar uma cidadezinha. Resulta que a bagaca é tao, mas tao sem graca, que cheguei a cogitar a hip—tese de fazer um documentario só com relatos misteriosos sobre sua existencia para mostrá-la, medíocre, ao final. Sabe aquele ¨fuen fuen fuen¨ que a gente escuta nos programas de teve quando alguma coisa sai errado? Seria por ai a coisa.
Mas a verdade é que eu, que tenho mania de ver coisa bunita em tudo quanto é lado, nao cheguei a ser contaminada por esse ar todo estranho. O que vi realmente foi um pueblito como tanto outros daqui, do Brésil ou de qualquer outro lugar do mundo, cheio de mistério sim, mas cheio coisa boa escondida em cada ruga de cada morador. Foi lá que encontrei um de meus personagens, Damian Hernandez, 77 anos, aposentado, poeta amador e repentista. Sim, aqui em Cuba também tem repentista. Com a particularidade de que os repentes daqui sao chamados de dŽcimas porque quem se atreve a praticá-los tem que respeitar a forma de estrofes de 10 versos cada. Damian o faz desde jovenzinho e hoje as vezes ainda arrisca umas improvisacoes. Tem uma pilha de cadernos só de décimas sobre a revolucao, mas o que lhe inspira mesmo sao as mulheres, as bedeiras, as bobagens e as coisas boas da vida. Um velhinho safado, poder’amos dizer.

SANTA CRUZ DO ESQUECIMENTO
Esse é o titulo do documentario que estao fazendo Fofy e seu grupo e que me parece uma boa forma de se referir a Santa Cruz. A cidade tem o porte de San Antonio, com a linda vantagem de estar a beira do mar. Mas Santa Cruz parece mesmo esquecida, perdida no tempo. A história da cidade é bem doida, parece que por aqui já teve abundancia de ouro, riqueza das fábricas de rum, energia das termelŽtricas, resistencia forte do partido comunista, agricultura que abastecia quase toda a ilha. E agora nao resta quase nada disso.
No geral, é uma cidade com mais cara de cidade, com movimento, gente de muitas idades, escolas, centros comerciais, uma praca principal unindo tudo isso, enfim, um ambiente mais urbano capaz de dar espaco inclusive a um grupo de jovens rappers dispostos a criticar a situacao atual do país.
Meu segundo personagem é um deles, René, muchacho de 23 anos, funcionário da casa de cultura, estudante de sociocultura e também poeta. Damian e ele compoem o mundo que decidimos abordar, um binomio de geracoes distintas e parecidas ao mesmo tempo, especialmente pelo fato de serem poetas amadores, defensores dos ideiais da revolucao, mas cada um coerente com seu tempo. Nossa tese é a de que o tempo muda os contextos e portanto muda também as idéias. Aqui em Cuba há uma certa resistencia em aceitar este fato que pode parecer tao óbvio.

O FINAL DO PRIMEIRO TEMPO

só pra dar invejinha, esse é o campismo em que passamos o ultimo mes trabalhando. detalhe para o mar feio em background...



Pois é, chegou. Terminamos a primeira parte, minha gente. E só para variar foi mais um dos períodos de experiencias doidas de vida e de aprendizagem cinematográfica – ok, piegas, eu sei, mas cá entre nós, sabemos que eu sou piegas messs, nao tem jeito.

Bueno, como dito no post anterior, passamos um mes ¨isolados do mundo¨ e sem acesso a internet, mas metidos de vez em Cuba e fora da eterna bolha eictviana. Chegamos dia 15 de outubro (afe maria, parece que faz tanto tempo) diretores, roteiristas e produtores a cidade de Santa Cruz do Norte, pertencente a provincia de Havana, quase na divisa com a provincia de Matanzas. Durante os primeiros 15 dias, a missao era investigar, elaborar 3 propostas de trabalho para realizacao e apresentar ¨a preferida¨ para a banca examinadora ( com os chefes de cada cátedra e diretores academicos) no processo ¨mundialmente conhecido¨ como pitch. Além de Santa Cruz, tínhamos a possibilidade de buscar temas também em Hershey e Canasi.