ADJETIVO
Sim, era isso mesmo, que que havia de errado? Com tantos Beneditos, tantos Plácidos, tantas Milagros, Perpétuos, Gastões, Das Dores, que problema havia com seu nome?
Era assim e pronto.
E, com o perdão da rima pobre, Misério vivia uma vida miserável. Sem mis en cene, sem mística e quase sem música. A mesma rotina de sempre, comer as migalhas recolhidas à lua e ao sol, olhar e não ver nada.
Vomitava com frequencia. Sofria de uma bulimia imposta pelos restos, aos quais, diferente dos outros, ele não se acostumava. O fedor, odor podre, difícil de habituar. Mesmo assim alimentava-se. Três vezes ao dia, seguindo o itinerário dos caminhões. Não gostava de revirar lixo, preferia catar o que restava no rastro.
Pois é, Misério era seletivo. Selecionava os cantos onde poderia cochilar, diferente daqueles em que fazia a cesta ou dos que serviam para o descanso de um dia completo. Selecionava também os bairros por onde andava, porque não gostava de ficar com os pés sujos de lama de poça.
Em uma seleção antecipada, Misério havia selecionado até a cor dos sacos de lixo que um dia poderia vir a revirar. Mas, por enquanto, os rastros dos caminhões lhe eram suficientes.
Numa certa altura dessa sua vida mísera( é irresistível, desculpem-me), Misério constatou satisfeito: atingira o estado de transparência, o que lhe poupava o incômodo das caras incomodadas. Mas ele mesmo incomodava-se muito. Além das poças de determinados bairros, incomodava-se com crianças remelentas, com o grito das gatas no cio, com fachadas cinzas de edifícios metropolitanos, com transeuntes vestidos de verde, víboras notúrnicas, raios de sol desangulares, solfejos e folguedos populares entoados por grupos experimentais burgueses. Incomodava-se principalmente com a palavra burguesia e esse seu som afrancesado. Não a pronunciava nunca para não vomitar além do costume e assim poupava sua rotina de desgostos maiores aos que ele já estava habituado. Misério tinha lá desses caprichos, cuidadoso com sua vida e o fato de só lhe restarem restos, mais uma redundância desse humor negro sem graça que era existir.
As crenças, como dissemos, ele havia deixado de lado, assim como companheiras e outras formas de espantar a monotonia. Ele não gostava de espantar a monotonia, não suportava batidas de carro ou qualquer incidente que pudesse mudar um pedaço do seu estar no mundo. Quando percebia algo por acontecer, fechava os olhos e assim ficava por uma, duas, três horas inteiras, o tempo necessário para que a vida recobrasse o sentido de sempre, os mesmos sons e movimentos dos quais ele se via regente, afinal. Nada de clímax. Nem de “um belo dia”. Sem conflito. Sem história.
Porque ele era, simplesmente, e não se via condenado, e pronto. Condenado pelo nome? Era só o que faltava. Mudaria alguma coisa se ele tivesse nascido Riquezo? Af. Pra viver tão adjetivo, ele não titubeava. Nem jardins, nem glamour, nem falso brilhante. Se era pra se dedicar de tal forma a só ser, escolhia mesmo a miséria.
Era assim e pronto.
E, com o perdão da rima pobre, Misério vivia uma vida miserável. Sem mis en cene, sem mística e quase sem música. A mesma rotina de sempre, comer as migalhas recolhidas à lua e ao sol, olhar e não ver nada.
Vomitava com frequencia. Sofria de uma bulimia imposta pelos restos, aos quais, diferente dos outros, ele não se acostumava. O fedor, odor podre, difícil de habituar. Mesmo assim alimentava-se. Três vezes ao dia, seguindo o itinerário dos caminhões. Não gostava de revirar lixo, preferia catar o que restava no rastro.
Pois é, Misério era seletivo. Selecionava os cantos onde poderia cochilar, diferente daqueles em que fazia a cesta ou dos que serviam para o descanso de um dia completo. Selecionava também os bairros por onde andava, porque não gostava de ficar com os pés sujos de lama de poça.
Em uma seleção antecipada, Misério havia selecionado até a cor dos sacos de lixo que um dia poderia vir a revirar. Mas, por enquanto, os rastros dos caminhões lhe eram suficientes.
Numa certa altura dessa sua vida mísera( é irresistível, desculpem-me), Misério constatou satisfeito: atingira o estado de transparência, o que lhe poupava o incômodo das caras incomodadas. Mas ele mesmo incomodava-se muito. Além das poças de determinados bairros, incomodava-se com crianças remelentas, com o grito das gatas no cio, com fachadas cinzas de edifícios metropolitanos, com transeuntes vestidos de verde, víboras notúrnicas, raios de sol desangulares, solfejos e folguedos populares entoados por grupos experimentais burgueses. Incomodava-se principalmente com a palavra burguesia e esse seu som afrancesado. Não a pronunciava nunca para não vomitar além do costume e assim poupava sua rotina de desgostos maiores aos que ele já estava habituado. Misério tinha lá desses caprichos, cuidadoso com sua vida e o fato de só lhe restarem restos, mais uma redundância desse humor negro sem graça que era existir.
As crenças, como dissemos, ele havia deixado de lado, assim como companheiras e outras formas de espantar a monotonia. Ele não gostava de espantar a monotonia, não suportava batidas de carro ou qualquer incidente que pudesse mudar um pedaço do seu estar no mundo. Quando percebia algo por acontecer, fechava os olhos e assim ficava por uma, duas, três horas inteiras, o tempo necessário para que a vida recobrasse o sentido de sempre, os mesmos sons e movimentos dos quais ele se via regente, afinal. Nada de clímax. Nem de “um belo dia”. Sem conflito. Sem história.
Porque ele era, simplesmente, e não se via condenado, e pronto. Condenado pelo nome? Era só o que faltava. Mudaria alguma coisa se ele tivesse nascido Riquezo? Af. Pra viver tão adjetivo, ele não titubeava. Nem jardins, nem glamour, nem falso brilhante. Se era pra se dedicar de tal forma a só ser, escolhia mesmo a miséria.


